​MAKAYA : QUANDO AS FOLHAS DESPERTAM A ALMA DO HAITI

  • 25/12/2025
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​MAKAYA : QUANDO AS FOLHAS DESPERTAM A ALMA DO HAITI

Folhas, floresta e o renascimento de um povo

Por James Désiris
Tempo de leitura: 3-4 minutos

Introdução - Um tempo fora do tempo

O período de Makaya, que se estende de 21 de dezembro, dia do solstício de inverno, até 6 de janeiro, festa da Epifania, constitui um dos momentos mais densos, mais misteriosos e mais estruturantes do calendário litúrgico do Vodu haitiano.

Trata-se de um tempo de transição cósmica, social e espiritual, no qual a natureza, a farmacopéia sagrada e a metafísica vodu convergem para encerrar um ciclo e inaugurar outro.

Makaya não é uma simples tradição de fim de ano nem um folclore popular. É um dispositivo ritual total, no qual se articulam simultaneamente a relação com os ancestrais, a soberania do corpo, a memória do marronage (resistência dos escravizados fugitivos) e a inteligência botânica herdada de diversas civilizações africanas, ameríndias e crioulas.

I. A simbologia do tempo: do solstício à reconquista da luz

Na cosmologia vodu, o tempo jamais é neutro: ele é carregado, orientado, operante.

Após o mês de novembro, dedicado aos Gédé, aos mortos e à memória dos que partiram, dezembro marca uma inflexão. O 21 de dezembro, a noite mais longa do ano no hemisfério norte, é percebido como o ponto exato em que as trevas deixam de avançar e a luz começa lentamente a reconquistar o espaço.

Makaya se inscreve precisamente nesse momento liminar: nem morte, nem renascimento completo, mas limiar, passagem, recomposição.

Etimologia e vibração ritual

O termo Makaya provém do kikongo (línguas bantas) e significa literalmente “folhas”. Essa etimologia é fundamental. No Vodu haitiano, a folha nunca é decorativa: ela é matriz da vida, suporte do cuidado, instrumento de transformação.

No plano energético, Makaya corresponde à passagem:

  • dos ritos Rada (frios, estabilizadores),
  • e dos ritos Gédé (sombrios, ligados à morte),

para uma vibração mais quente, dinâmica e operativa, associada aos ritos Pétro e Congo.

É também o tempo privilegiado das sociedades iniciáticas (Bizango, Makaya), da magia protetora e do reforço das barreiras espirituais.

II. Simbi Makaya: senhor da floresta e da ciência das folhas

Figura central desse período, Simbi Makaya é um lwa intimamente ligado à floresta profunda.

Diferentemente dos Simbi associados às fontes e às águas doces, Simbi Makaya reina sobre as matas selvagens, as zonas não domesticadas, onde a natureza conserva sua plena autonomia e sua potência original.

Ele é reconhecido como:

  • grande mago,
  • detentor do saber botânico,
  • mestre da transformação rápida.

Simbi Makaya encarna o equilíbrio sutil entre:

  • o conhecimento empírico das plantas (syans fey),
  • e o poder místico operante.

No imaginário vodu, ele possui a capacidade de “virar” uma situação, de reverter um feitiço, de transformar uma vulnerabilidade em força ativa.

III. O banho Makaya: uma tecnologia ritual

O banho Makaya não se refere nem à higiene corporal nem a um simbolismo superficial.
Ele constitui uma tecnologia espiritual complexa, voltada à purificação, à proteção (blindagem) e à recarga energética.

1. A coleta das folhas

Durante esse período, considera-se que as plantas atingem seu ápice de potência medicinal e espiritual.

A coleta é realizada por um médico-das-folhas, um servidor ou um iniciado, respeitando rigorosamente as regras rituais.

Distinguem-se principalmente:

  • folhas de purificação (pou dechaj, retire giyon):
    mamoeiro, limoeiro, salsa;
  • folhas de sorte e proteção (pou chans, beny dous):
    manjericão, laranja-doce, hortelã, cascas preciosas.

2. O ritual do pilão

As folhas, frescas ou secas, são:

  • amassadas com as mãos,
  • ou piladas em um pilão ao ritmo dos cantos e das orações.

Esse gesto visa libertar a alma da planta.

A mistura é então enriquecida com:

  • álcool, kléren (ativador),
  • perfumes rituais (Florida, Pompeïa, Rêve d’or),
  • às vezes fogo sagrado (banho de fogo),
  • leite ou mel para suavizar a ação.

3. O banho da meia-noite

O banho é preferencialmente tomado:

  • na noite de Ano-Novo,
  • ou em 6 de janeiro, à meia-noite.

O corpo é friccionado com os resíduos vegetais.
Não se enxuga: a energia deve secar sobre a pele para penetrar o espírito.

IV. Memória política e história da resistência

Makaya é indissociável da história da resistência haitiana.

Seu nome evoca:

  • o chefe rebelde Macaya,
  • e o legado de François Mackandal, figura maior do marronage, mestre da farmacopéia e dos venenos.

No período colonial, a floresta foi simultaneamente:

  • refúgio,
  • laboratório,
  • espaço de liberdade.

Tomar um banho Makaya ou traçar um vèvè de Simbi Makaya é reafirmar uma soberania espiritual, uma continuidade histórica de luta e autodeterminação.

V. Makaya como fato social total

Entre 21 de dezembro e 6 de janeiro, o Haiti desacelera.

As cidades se esvaziam, o campo se repovoa, e a bitasyon volta a ser o centro simbólico do mundo.
É o tempo do:

  • retorno aos ancestrais,
  • pagamento dos compromissos espirituais (angajman),
  • realinhamento das relações entre vivos, mortos e lwa.

Um provérbio popular resume essa gravidade:

“É depois de 6 de janeiro que se sabe se você passou.”

Ultrapassar o marco do Dia de Reis (Jou Lè Wa) significa que as contas foram acertadas e que a vida pode retomar seu curso.

Conclusão - Makaya, ou a arte haitiana de recomeçar

Makaya funciona como um reset coletivo.

Limpa-se o passado, quitam-se as dívidas invisíveis, reforçam-se as proteções, reconstituem-se os vínculos.

Em um mundo em crise, o Vodu haitiano lembra uma verdade essencial:
o futuro não se recebe, ele se constrói.

Com folhas.
Com a floresta.
Com a memória dos ancestrais.

Assinatura

James Désiris
Artista-pesquisador, cineasta e autor

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